Cursos  
Novidade  
Consultorias  
Depoimentos  
Projeto Espaço  
Pós-Graduação  
Galeria de Fotos  
Textos para Discussão  
   
 
TEXTO I - CONSIDERAÇÕES SOBRE O PÉ, DINAH SILVEIRA DE QUEIRÓS

Sim, no começo era o pé. Se está provado, por descobertas arqueológicas, que há sete mil anos estes brasis já eram habitados, pensai nestas legiões e legiões de pés que palmilham nosso território. E pensai nestes passos, primeiro sem destinos, machados de pedra abrindo as iniciais picadas na floresta. E nos pés que subiam às rochas distantes, já feitos de pedra também, e nos que se enfeitavam de penas e recebiam de penas e receberam as primeiras botas dos conquistadores e as primeiras sandálias dos pregadores, pés barrentos, nus, ou enrolados de panos dos caminhoneiros, pés sobre-humanos dos bandeirantes que alargaram um império, quase sempre arrastando passos e mais passos em chãos desconhecidos, dos marinheiros de barcos primitivos e dos que subiram aos mastros das grandes naus. Depois, o Brasil se fez sedentário numa parte de seu povo. Houve pés descalços que carregaram os pés calçados, pelas estradas. A moleza das sinhazinhas de pequeninos pés redondos, quase dispensáveis pela falta de exercício. E depois das cadeirinhas, das carruagens, das redes carregadas por escravos, as primeiras grandes estradas já com postos de montaria organizados, o pedágio de vinténs estabelecido já no século XVIII. Mas além da abertura dos portos, depois da primeira etapa da industrialização, com os navios a vapor, as estradas de ferro, o pé de sete milênios de terra do Brasil ainda faz seu caminho. Há pouco, numa das belas rodovias (a chamada “’Circuito das Águas”), vi emocionada, à beira dos largos caminhos cinzentos por onde flui novo progresso, ainda legiões de pés caboclos: o marido, a mulher, seus baús, suas crianças, uma velha fechando a pequena caravana. Inundados pela fumaceira dos grandes caminhões pejados de mantimentos ou de objetos de consumo, esses brasileiros recordavam, no fundo do desenvolvimento, sete mil anos de andanças a pé. Eram vários, que buscavam novos destinos; estavam marginalizados física e socialmente na era dos transportes. Mas, um dia, e eu creio bem próximo, na escalada dos transportes só os estudantes em férias, os escoteiros, conhecerão a aventura de andar a pé. As rodovias riscam o Brasil de um varejar de progresso que se ramifica e se entrecruza. As estradas de ferro, as rotas dos aviões conduzem mais gente, mais riquezas. Por enquanto, porém, ainda podeis dizer. No começo era o pé – e ainda hoje, para multidões obscuras de brasileiros não incorporados à realidade cada vez mais esmagadora do progresso nos transportes, ainda hoje, humilde, persistente, vadiando pelos confins do Brasil ou caminhando certo para o bem-estar de uma família, ainda hoje é o pé.

 
   
INICIAL | APRESENTAÇÃO | HISTÓRICO | ÁREAS DE ATUAÇÃO | LINKS | EVENTOS | NOTÍCIAS | CONTATOS Desenvolvido por
CPELC CNPJ 68.567.833/0001 - TEL.: (21) 3587-6333 © Todos os direitos reservados